Em 23 de junho de 1996, Paulo César Farias, o PC, tesoureiro da campanha de Fernando Collor e personagem central no escândalo que culminou no primeiro impeachment da história brasileira, foi encontrado morto ao lado de sua namorada, Suzana Marcolino, na casa de praia em Guaxuma, Alagoas.

A versão oficial da polícia alagoana foi rápida: crime passional. Suzana teria matado PC e cometido suicídio em seguida. Mas as evidências contavam uma história completamente diferente. O Prof. Dr. Ricardo Molina, coordenador do Laboratório de Fonética da Unicamp, foi convocado para analisar as gravações dos três telefonemas que Suzana deixou na madrugada do crime. O que ele encontrou, e o que a perícia oficial tentou esconder, está documentado a seguir, nos capítulos do seu livro O Brasil na Fita.

Sobre esta análise

O que você vai ler a seguir não é uma reportagem — é o relato técnico de quem conduziu a perícia fonética oficial do caso. A mesma metodologia usada para decifrar as gravações de Suzana Marcolino em 1996 — identificação de locutor, autenticidade de gravação, análise espectrográfica — é aplicada hoje pelo Prof. Dr. Ricardo Molina em milhares de casos judiciais, cíveis e criminais, em todo o Brasil.

FALAR COM O PERITO



PC Farias — Lado A

Suzana e o sussurro

Voz feminina: Eu liguei pra você, é Suzana, pra dizer que nunca vou esquecer você, tenho certeza que eu vou lhe encontrar… em algum lugar… te adoro, beijo.

Voz masculina ao fundo: Que cê tá fazendo…? Te arruma!

Voz feminina: Se arrumo…

No domingo, 23 de junho de 1996, as mortes de Paulo César Farias (o PC) e Suzana Marcolino, sua namorada, pararam o Brasil. O trecho acima era a primeira de três mensagens deixadas por Suzana na caixa postal do celular do dentista Fernando Colleoni na madrugada em que ocorreram as mortes, mais precisamente às 3h54. Ela voltou a ligar às 4h58 e 5h01.

Ela estivera em Santo André, município da grande São Paulo, hospedada na casa de uma prima, que indicou o dentista Fernando. Suzana esteve no consultório apenas duas vezes: para uma consulta, na quinta-feira, 20 de junho, e para uma radiografia, na sexta. Nesse dia, jantaram em um restaurante sofisticado no bairro de Higienópolis, em São Paulo. Pelo menos essa foi a versão do dentista. No sábado, ela retornou para Maceió, onde morreu na madrugada de domingo.

O dentista, Fernando Colleoni, é filho de família tradicional de alta classe média de Santo André. Em depoimento, admitiu ter trocado uns beijos com Suzana, mas disse que não passou disso. Não havia namoro ou envolvimento emocional. Durante o jantar, ela teria dito que “tinha um namorado, mas não era nada sério”. Falaram sobre uma viagem que ela fez à Europa, marcas de vinho e champanhe importados, o que, segundo o dentista, passou-lhe a impressão de Suzana ser um pouco esnobe.

O clima no restaurante era romântico. Funcionários relataram que Fernando e Suzana trocaram carícias durante o jantar. À meia-noite e meia, o segurança afirmou ter visto os dois se beijando na boca ao entrarem no carro. Segundo Fernando, rodaram pela cidade passando em frente a restaurantes chiques e do Parque do Ibirapuera. Depois, às 2h45, ele a deixou no apartamento da prima, em Santo André. Um prolongado city tour, convenhamos, para quem jantou entre carinhos e beijos.

Tudo indica que esse foi mesmo o primeiro encontro entre os dois. O que ocorreu de fato, nessa noite, nunca saberemos. Porém, tudo era ainda muito incipiente para motivar um crime. Mesmo os três telefonemas que Suzana fez para o dentista na madrugada em que ela e PC morreram não faziam sentido. Segundo Colleoni, o breve e superficial contato com Suzana não combinava com o tom íntimo e confessional das mensagens.

Suzana voltou para Alagoas no sábado, dia seguinte ao encontro com Fernando. Chegou a Maceió, visitou a mãe e foi ao cabeleireiro. No final do dia, foi para a casa de praia de PC, em Guaxuma. Chegando lá, encontrou PC e seus irmãos Augusto, com a namorada, e Cláudio, com a esposa.

PC Farias era bom de copo. Segundo depoimento dos funcionários que serviam a casa naquele dia, entre 13h e 16h do sábado, ele tomou três garrafas de champanhe. Durante o almoço, abriu uma garrafa de vinho francês, safra 1989, comeu frango ao molho pardo, cozido com farofa de ovos, arroz e feijão. Depois do almoço, finalizou a garrafa de vinho. Foi descansar um pouco e dormiu das 18h às 19h30, quando acordou e matou a sede com água mineral Perrier. Às 20h30, pronto para outra, abriu uma garrafa de uísque Johnny Walker Blue Label para acompanhar petiscos de queijo provolone importado e castanha.

Mais tarde, já na companhia de Suzana e de Augusto Farias e da namorada, PC fez sua última refeição: camarões fritos de tamanho médio, verduras, salada de batatas cozidas com atum e queijo e arroz à grega. Quando o irmão foi embora, o Blue Label estava pela metade. De manhã, a garrafa estava vazia e PC e Suzana foram encontrados na cama, mortos, cada um com um tiro.

Em 1994, bem antes disso, a morte da mulher de PC, Elma Farias, já levantara suspeitas. Quando o marido foi preso, Elma disparou: “O que o Paulo César fez foi conseguir fundos de empresários para a campanha de Collor. Por que só o Paulo César? Ele não agiu sozinho. Tem alguém que mandou, e o chefe maior foi quem mandou.” Elma estava inconformada com o fato de PC ser o único acusado pelas falcatruas em torno da arrecadação de fundos para a campanha presidencial de Fernando Collor de Mello. Ela insistia que ele precisava contar os segredos que guardava: “Paulo, você tem que tocar fogo neste país, entregar todo mundo.”

Pouco tempo após mostrar sua indignação, em 20 de julho de 1994, Elma Farias morre de causas misteriosas e seu corpo é cremado, ritual que não era comum na família, mas que elimina qualquer possibilidade de uma futura exumação para apurar as causas da morte. Dois anos depois, Paulo César Farias, arquivo vivo do maior escândalo político do país, que culminou com o impeachment do presidente da República, virou arquivo morto.

A polícia alagoana queria fechar o inquérito o mais rápido possível e a tese do crime passional, homicídio seguido de suicídio, era perfeita. Suzana teria matado PC e depois se matado: fim de caso. A Secretaria de Segurança de Alagoas e o próprio governo do estado pareciam ter muito interesse nessa tese, pois assim se encerrava o assunto como um evento doméstico, sem qualquer conotação política.

Mas a opinião pública não estava disposta a aceitar passivamente essa história. Parecia algo muito banal para um personagem tão importante. Além disso, era difícil engolir que a cena do crime tivesse sido rapidamente destruída: o colchão e os lençóis foram queimados, e o piso, meticulosamente lavado com detergente. Qual o motivo da pressa?

Nesse cenário, o legista alagoano Gérson Odilon foi uma voz dissonante. Embora fizesse parte do corpo de legistas do Instituto Médico Legal de Maceió, Gérson desconfiou da versão que lhe foi imposta e, acompanhando a investigação desde o início, teve acesso a fotografias das vítimas na cena dos crimes. Como bom aluno, levou as fotos ao seu professor, George Sanguinetti, que se notabilizou por contestar frontalmente a versão oficial.

Gérson pagou caro por essa atitude. Segundo a revista IstoÉ, ele “foi chamado pelo coronel Amaral [secretário de Segurança], que o ameaçou com a abertura de um inquérito policial caso não afirmasse publicamente que Sanguinetti havia roubado as fotografias”. Ainda segundo a revista, Gérson foi também obrigado a assinar o laudo oficial. Não podia haver sequer uma voz destoante, especialmente de dentro do IML de Maceió. Gérson nunca mais falou nada.

Sanguinetti, por sua vez, com base nas fotos, concluiu que a trajetória do projétil interno que atingiu PC Farias só seria possível se o atirador estivesse flutuando sobre a cama. Na versão oficial, Suzana teria feito o disparo em pé, do lado da cama onde PC estava deitado. O projétil atingiu-o na altura do ombro esquerdo e rompeu a artéria aorta, provocando morte quase imediata. Essa trajetória seria incompatível, segundo Sanguinetti, com um atirador postado ao lado da vítima. Seu questionamento fazia sentido. Tudo indicava que não apenas as peças principais foram eliminadas como também os corpos foram manipulados, de modo a tentar compatibilizar as imagens com a versão de homicídio seguido de suicídio. Sanguinetti fez várias observações pertinentes na época e tinha razão em muitos pontos. No entanto, perdeu parte de sua credibilidade por ter se atirado muito rapidamente nos braços da mídia.

Porém, por mais que a cena do crime tivesse sido maquiada, de modo quase hollywoodiano, ainda assim havia uma série de evidências que não deveriam passar despercebidas para um perito competente. Além do inusitado trajeto do projétil no corpo de PC, o exame residuográfico nas mãos de Suzana não encontrou vestígios de pólvora, apesar de ela, como se alegava, ter desferido dois disparos sequenciais. Outro ponto a se explicar era a altura da entrada do projétil na parede, depois de atravessar o corpo de Suzana. Ela teria de estar em movimento, levantando-se, para que a marca na parede fosse compatível, o que, obviamente, é impossível — ninguém se mata com um tiro no peito e se levanta ao mesmo tempo. Mais estranho ainda era o fato de os seguranças particulares, na verdade policiais militares, familiarizados com armas de fogo, não terem ouvido dois disparos desferidos a poucos metros de onde estavam, vindos de uma casa pré-fabricada, com paredes de madeira fina, sem qualquer isolamento acústico. Pela versão oficial, os corpos só foram encontrados pela empregada, quando foi servir o café da manhã.

As dúvidas eram muitas e a opinião pública estava descontente com as explicações oficiais. Nesse momento, a Unicamp foi chamada numa tentativa de emprestar credibilidade à tese de crime passional. O caso começava a adquirir sua real importância. O ministro da Justiça Nelson Jobim e o governo de Alagoas solicitaram os serviços do Departamento de Medicina Legal da Unicamp. Como não sou médico-legista, deixei claro desde o primeiro momento que a minha participação se resumiria à análise das gravações dos telefonemas e que o laudo do Laboratório de Fonética, por mim coordenado, seria entregue separadamente.

Assim que chegou a solicitação da perícia fonética, acionei imediatamente a Telesp, consultando-a sobre a possibilidade de ter acesso aos arquivos originais com as gravações. Como é sabido, as mensagens de celular ficam armazenadas na operadora por algum tempo. Na época, a Telesp mantinha por 120 horas as mensagens. Foi decepcionante descobrir que os arquivos originais tinham sido apagados pela operadora. O delegado Naief Saied Neto, a quem o dentista Fernando Colleoni apresentou as gravações, não teve o cuidado de pedir a preservação dessas gravações junto à Telesp. Em vez disso, o delegado apressou-se em convocar a imprensa para divulgar as mensagens de Suzana. O problema é que o material apresentado na delegacia já era uma gravação de terceira geração: a primeira, já apagada, era a original, digitalizada no banco de dados da Telesp; a segunda, também perdida, é a que poderia ser ouvida diretamente do celular de Fernando; a terceira, que efetivamente Fernando apresentou ao delegado, era uma cópia em fita microcassete feita por contato, ou seja, encostando o microfone embutido do gravador no fone do celular. Gravações realizadas desse modo degradam consideravelmente a qualidade do som.

Não só a atitude do delegado foi pouco cautelosa como é também inexplicável que a própria Telesp não tivesse tomado a iniciativa de preservar os arquivos originais diante da enorme repercussão do caso. A Telesp, questionada quanto a isso, justificou-se alegando que, caso tivesse preservado as gravações sem a autorização explícita do usuário ou sem uma ordem judicial, estaria quebrando a privacidade do cliente. Uma justificativa pouco razoável, uma vez que o próprio cliente já tinha divulgado o conteúdo integral das mensagens para toda a mídia.

A cópia em fita microcassete feita pelo dentista era de terceira geração. Essa fita é a que foi encaminhada para o Instituto de Criminalística de São Paulo. O que chegou até nós para análise era uma cópia dessa fita, quarta geração, captada pela câmera de uma emissora de televisão que registrara na delegacia a reprodução da fita microcassete que o dentista apresentou ao delegado.

Começamos a trabalhar imediatamente com essa gravação de quarta geração. A transcrição das falas de Suzana Marcolino não apresentou grandes dificuldades. O curioso é que as três mensagens deixadas por Suzana na caixa postal do celular do dentista não faziam muito sentido. Vejamos abaixo a transcrição integral das gravações:

Primeiro telefonema, às 3h54

Voz feminina: Eu liguei pra você, é Suzana, pra dizer que nunca vou esquecer você, tenho certeza que eu vou lhe encontrar… em algum lugar… te adoro, beijo.

Voz masculina ao fundo: Que cê tá fazendo…? Te arruma!

Voz feminina: Se arrumo…

Segundo telefonema, às 4h58

Voz feminina: Alô, Fernando, é Suzana… Eu queria dizer pra você que foi muito bom conhecer você e que… eu não ia acreditar, sabia? …que eu ia conhecer alguém igual a você, tão humano, tão profundo, tão lindo, eu tenho certeza que vou lhe encontrar… em algum lugar…

Terceiro telefonema, às 5h01

Voz feminina: Sou eu novamente, eu queria dizer que… tão pouco tempo, um dia só, um momento que eu lhe conheci… mas eu amo você, eu nunca vou esquecer você, espero um dia encontrar você, nem que seja… na eternidade, em algum lugar… do outro mundo… eu encontro você, eu tenho certeza absoluta… e você é tudo… tudo de mais profundo que eu já conheci… em muito pouco tempo, você me falou muito pouco…

Esses telefonemas tornam o caso ainda mais enigmático. Vejamos:

  1. No primeiro telefonema, de quem seria a voz masculina ao fundo que manda Suzana se arrumar? Embora fosse possível escutar algumas palavras, a qualidade da gravação não permitia identificar o falante.
  2. Para que se arrumar às 3h54 da madrugada? E por que ela concordou em se arrumar?
  3. Por que três telefonemas para alguém que ela conhecia havia tão pouco tempo?
  4. Se Suzana tivesse de fato matado PC, por que deixar mensagens para alguém que estava tão distante e que não poderia ajudar em nada?
  5. Há um lapso de 1 hora entre o primeiro e o segundo telefonemas. O que Suzana fez nesse intervalo? Teria telefonado para outras pessoas? Não há informação sobre isso. O que se sabe é que o celular de Suzana nunca foi encontrado.
  6. Suzana, no segundo e terceiro telefonemas, expressa o desejo de reencontrar o dentista, mesmo que seja “em algum lugar”, “na eternidade”, em “outro mundo”. Muitos interpretaram essas falas como sendo de alguém com a intenção de se matar. Porém, se estivesse certa disso, ela não diria “nem que seja na eternidade”. Essa expressão mostra que Suzana não sabia o que iria acontecer. Suas dúvidas eram em relação ao suicídio ou temia ser morta por alguém? Hoje se sabe que ela não se matou, como veremos adiante.
  7. O conteúdo dos dois últimos telefonemas é praticamente o mesmo. Por que Suzana, 1 hora depois do primeiro telefonema, teria deixado duas mensagens repetitivas num intervalo de apenas 3 minutos? Isso apontaria alguma mudança na situação? E por que as mensagens dizem tão pouco?
  8. Por que o tom de voz e o próprio conteúdo das mensagens não parecem compatíveis com alguém que, ao lado do amante que acabara de matar, pretende cometer suicídio em seguida?
  9. Por que as mensagens expressam mais um romantismo pueril do que a verdadeira dramaticidade da situação?
  10. Por que Suzana estava de sutiã e camisola na cama? Segundo depoimento de sua irmã, ela nunca dormia de sutiã. Suzana estaria preparada para dormir ou para se retirar do local?

O grande nó

O grande nó dessa história é a tal voz masculina ao fundo, que manda Suzana se arrumar enquanto ela deixa a primeira mensagem. Maria Teresa Pacheco, diretora do Departamento de Polícia Técnica do IML da Bahia e uma das maiores autoridades do país em medicina legal, verificou nos exames das vísceras que Suzana estava sem nenhum vestígio de alimento em seu estômago. Já PC tinha pedaços inteiros de camarões e arroz no aparelho digestivo. Como os dois tinham jantado juntos e o estágio da digestão é um dos melhores indicadores do momento da morte, era certo que PC tinha morrido horas antes de Suzana, pouco tempo depois do jantar. O horário mais provável era entre 1h30 e 2h da manhã. Mas se PC morreu nesse horário, quem falava com Suzana às 3h54?

O laudo oficial passou solenemente por cima da sólida evidência médico-legal com base no tempo de digestão e fixou o horário da morte como tendo ocorrido após as 4h. Embora esse horário tardio conflitasse com o exame das vísceras, a tese de homicídio seguido de suicídio só se sustentaria se fosse de PC a voz masculina ao fundo. Portanto, às 3h54, PC ainda tinha de estar vivo. Mas o que fazer com uma evidência tão forte como o exame realizado pela doutora Maria Teresa Pacheco, que assegurava um horário bem anterior?

Diante desse impasse, argumentou-se que PC teria feito uma “boquinha” no meio da madrugada. Bem, esse é o tipo de argumento especulativo que não se consegue contestar nem provar. Acredita quem quiser. Particularmente, acho improvável que alguém que consumiu uma enorme quantidade de álcool durante um jantar que acabou pouco depois da meia-noite tivesse condições de acordar algumas horas depois com disposição para fazer uma “boquinha”. Ainda mais de camarões com arroz.

O passeio da fita

Para complicar mais o caso, nem ao menos se tinha certeza de que a voz feminina era mesmo de Suzana. Além disso, como os telefonemas partiram de um celular, também não era possível confirmar se a origem da ligação tinha sido o interior da casa de PC. Solicitei à polícia de Alagoas algum material de vídeo no qual Suzana aparecesse. Assim poderíamos extrair amostras de voz para confronto. Enviaram-nos uma gravação em vídeo de uma festa na casa de PC. Suzana aparecia algumas vezes, mas não abriu a boca durante toda a gravação. Até hoje não entendo por que a tal fita foi remetida. Parece piada.

Procuramos então outros indícios e eles apareceram na análise de sons de fundo. Em dois dos telefonemas, percebia-se um ruído semelhante a um rangido de madeira. Ao confrontarmos esse ruído com gravações feitas no local do crime, constatou-se que o rangido só era produzido quando se andava no corredor da casa, cujo piso era de tábua corrida. A comparação espectrográfica não deixou dúvidas: quem deu os telefonemas estava mesmo no interior da casa. Só podia ser Suzana.

Embora continuássemos trabalhando dia e noite na gravação de quarta geração, esperávamos ansiosamente pela liberação da fita que estava com o Instituto de Criminalística de São Paulo. Fizemos uma solicitação formal para que a fita nos fosse enviada com urgência. Não havia motivos para o IC reter o material, visto que o primeiro procedimento nesse tipo de análise é o da digitalização, ou seja, criar um arquivo de áudio que possa ser reproduzido no computador. Tínhamos certeza de que o IC fizera isso.

Mas a fita não chegava nunca. Eu estava preocupado, pois no dia 5 de julho tinha de voar para Wiesbaden, na Alemanha, onde apresentaria um trabalho na Conferência Anual da Associação Internacional de Fonética Forense (IAFP). Nesse mesmo dia, finalmente, a fita chegou às minhas mãos depois de um inexplicável périplo. No dia 1º de julho, seguiu do IC de São Paulo para Maceió, onde o delegado Cícero Torres a aguardava com esta determinação: enviá-la imediatamente para a Unicamp. No dia 4 de julho, o material seguiu para Campinas. A razão de a fita ter viajado 4.811 km (SP–Maceió–Campinas) e não apenas os 100 km que separam as cidades de São Paulo e Campinas também não conseguimos explicar.

A fita chegou às minhas mãos em Campinas, cerca de 3 horas antes do meu embarque em Guarulhos. A expectativa era a de que essa gravação, de terceira geração, fosse melhor do que aquela com a qual eu estava trabalhando, de quarta geração. Consegui ouvir a fita apenas uma vez antes de viajar, mas logo percebi que havia algo estranho. A gravação que viera do IC estava muito pior do que a minha. Havia mais ruídos e a fala de Suzana era menos inteligível. Mas isso seria fisicamente impossível, pois uma gravação de terceira geração nunca será pior do que uma de quarta, independentemente dos equipamentos que as produziram. Alguma coisa aconteceu no longo caminho percorrido pelo material.

Não dava para acreditar que o IC de São Paulo tivesse feito uma transcrição a partir daquele material. Tudo indicava que a gravação fora adulterada. Onde e quando não se sabe, mas seria ingenuidade não considerar a hipótese de que havia interesses em não nos disponibilizar uma gravação com melhor qualidade. Já havíamos nos deparado com a também surpreendente atitude da Telesp, que não preservou as gravações originais. E então a gravação que, teoricamente, apresentaria as melhores condições fora praticamente destruída.

Sobrou a gravação que já tínhamos, feita por uma emissora de TV. Foi a que levei, devidamente digitalizada, para Wiesbaden, onde fica a sede do BKA (Bundes Kliminal Amt), o FBI alemão. Aproveitaria a viagem para examinar a gravação em um dos mais conceituados institutos de criminalística do mundo. Hermann Künzel, coordenador do setor de Fonética Forense do BKA, era um velho amigo e não colocaria dificuldades para que eu fizesse uso do seu laboratório. Conversando com uma de suas assistentes, Angelika Braun, no primeiro dia do congresso, contei estar trabalhando em um caso muito complexo e com muitas implicações políticas no Brasil. Angelika, imediatamente, mostrou-me a revista Focus, de grande circulação na Alemanha, com uma enorme matéria sobre a morte de PC Farias. Isso dá uma medida da repercussão internacional do caso.

Ao chegar no hotel em Wiesbaden, outra surpresa. A recepcionista informou que havia um homem, brasileiro, me esperando. A primeira coisa que me passou pela cabeça é se eu estaria sendo vigiado ou coisa pior. Diante dos fatos estranhos que cercavam o imbróglio PC Farias, tudo podia acontecer. Quem estaria me procurando na Alemanha? E para quê? Fui ao encontro do tal brasileiro. Felizmente, era um jornalista. Tratava-se do correspondente da Folha de S.Paulo Igor Gielow. A primeira pergunta foi minha: “Como você me descobriu aqui neste fim de mundo?”

Um jornalista da Folha em Campinas descobriu, sei lá como, onde eu estaria hospedado e acionou o correspondente na Europa. Igor pegou o primeiro voo de Londres e instalou-se no mesmo hotel. Ficou por lá uns quatro dias, tentando, de qualquer jeito, obter uma novidade, a partir das novas análises que eu faria no laboratório do BKA.

Mesmo com o apoio de dois profissionais que Künzel me disponibilizou, não houve progressos na análise da gravação. O fato é que o laboratório de fonética do BKA não era em nada superior ao nosso, nem em equipamento, nem em know-how. Evidentemente, ainda que eu tivesse obtido alguma informação nova, ela não seria passada com exclusividade para o correspondente brasileiro. Depois de alguns dias com jantares e cervejas na agradável companhia de Gielow, e ciente de que eu não lhe daria uma notícia em primeira mão, ele pediu que eu intermediasse uma entrevista com Hermann Künzel. Isso justificaria para a Folha seus dias na Alemanha (e nossos jantares).

Identificação de locutor e autenticidade de gravação — como a análise espectrográfica que localizou Suzana dentro da casa pelo rangido do assoalho — estão entre os exames mais solicitados hoje em disputas judiciais, investigações internas e processos envolvendo áudios de WhatsApp, ligações telefônicas e interceptações.

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A exumação

De volta ao Brasil, sem obter progresso significativo no laboratório do BKA na análise da gravação, a novidade era a exumação dos corpos de PC Farias e Suzana Marcolino, realizada em 17 de julho pelo legista Fortunato Badan Palhares, também da Unicamp.

A exumação é uma aberração e já foi praticamente banida nos países mais desenvolvidos, só sendo realizada em casos excepcionais. Enterrar um corpo para depois de um mês desenterrá-lo, já em decomposição, sendo que se teve a oportunidade de realizar um exame logo após a morte, é um atestado de incompetência, uma estupidez. A prática nos países do Primeiro Mundo é preservar o corpo no necrotério e só enterrá-lo após a definição da causa mortis. Como o mundo inteiro viu, o corpo do astro Michael Jackson só foi liberado após semanas de seu falecimento, depois de todos os exames necessários. No Brasil, Michael Jackson seria enterrado no dia seguinte e até hoje se estaria especulando sobre a verdadeira causa da sua morte. Exumação é atraso.

Raramente a exumação traz de fato alguma informação relevante. É mais um show pirotécnico do que uma imposição técnica. No caso específico de PC e Suzana, virou, literalmente, um show de TV. Dias depois da exumação, as cenas da autópsia estavam sendo veiculadas no programa Comando da Madrugada, de Goulart de Andrade, na TV Manchete. Mais absurdo ainda era a comercialização de uma fita VHS contendo imagens da autópsia. Sim, acreditem: Goulart de Andrade oferecia no programa cópias da fita para quem pagasse alguns trocados.

Por motivos óbvios, tornar públicas imagens de autópsia é uma infração ao Código de Ética Médica. Vender essas imagens, além de ilegal, é uma ofensa à família do morto. Tanto é assim que a família Farias acionou a emissora para evitar novas transmissões das cenas e interromper imediatamente a venda da fita.

Mas há uma explicação para as imagens terem ido parar nas mãos de Goulart de Andrade. Ele era um velho conhecido do Departamento de Medicina Legal da Unicamp. Como outros jornalistas, ele estava sempre rondando atrás de notícias. Não seria diferente num caso com tantos ingredientes para o tipo de programa sensacionalista que Goulart fazia na época.

O equipamento de vídeo da Unicamp era grande e pesado, pouco apropriado para registrar uma exumação que podia durar muitas horas. Mas Goulart foi muito prestativo e emprestou um equipamento de boa qualidade, porém leve e portátil. Esse foi o equipamento usado para filmar a exumação. Não é de se admirar que as imagens das autópsias de PC e Suzana tenham ido parar, com exclusividade, no programa de Goulart de Andrade. Uma mão lava a outra. Aliás, não foi o único vazamento de informação privilegiada. Uma semana antes da entrega do laudo coordenado por Badan Palhares, a revista Veja publicou matéria de capa com fotos exclusivas, constantes no laudo. Os demais veículos da imprensa só tiveram acesso a essas imagens depois da entrega oficial do laudo em Maceió.

Como a Veja conseguiu as fotos do laudo é um mistério até hoje. Ao ser perguntado sobre como teve acesso ao laudo, em entrevista dada ao Observatório da Imprensa em 2005, Joaquim de Carvalho, repórter responsável pela matéria, afirmou: “É algo que nunca vou revelar, para preservar minhas fontes. Off é sagrado para o jornalista tanto quanto o segredo de confessionário o é para o padre. A polícia tentou arrancar essa revelação, ao me interrogar por 4 horas. Perda de tempo. Na escola em que fui formado, aprendi que certos princípios éticos são inegociáveis e inquebrantáveis.” Bem, para o jornalista podem ter sido preservados os “princípios éticos”. Não se poderia dizer o mesmo de quem forneceu a ele a informação sigilosa. Fui testemunha de que Joaquim de Carvalho frequentou com bastante assiduidade o Departamento de Medicina Legal da Unicamp e esteve por lá cerca de uma semana antes da entrega do laudo. As fotos e as informações do laudo médico-legal eram guardadas a sete chaves. Nem eu tinha acesso ao material, pois estava trabalhando apenas com as gravações. Joaquim de Carvalho obteve as informações, com certeza, de alguém diretamente ligado à equipe que elaborava o laudo. O jornalista, por ética, manteve o sigilo da fonte. A fonte, por sua vez, não teve a ética de preservar as informações até a conclusão dos trabalhos.

Mas a exclusividade obtida pela Veja teve um preço alto e comprometeu a revista com a tese do crime passional, que não convenceu nenhum outro órgão de imprensa. A frase “Caso encerrado”, estampada na capa da revista, não permitia retomar esse assunto com espírito mais crítico. Na verdade, após o furo jornalístico de Joaquim de Carvalho, a Veja nunca mais se empenhou em defender abertamente a tese de crime passional no caso PC Farias.

O que foi feito na exumação não trouxe nenhuma novidade. O que gerou polêmica foi o que deixou de ser feito. O vídeo da necropsia em nenhum momento mostra a aferição da altura de Suzana Marcolino, algo que também não consta, por incrível que pareça, no laudo de Badan Palhares. O legista alega que teria sido um “erro de datilografia” e jura que tirou as medidas. Mas verbalmente ele afirmava que Suzana teria 1,68 m.

Genival Veloso de França, talvez o mais respeitado médico-legista do Brasil, declarou à Folha de S.Paulo ter visto o vídeo e que não há medição durante a autópsia. Donato Pasqual Júnior, cinegrafista da Unicamp, afirmou ter gravado todos os procedimentos da exumação, não tendo havido nenhuma descontinuidade. Se a medição tivesse sido feita, haveria seu registro. Num primeiro momento, não se deu a devida importância para a altura de Suzana Marcolino. Mas logo se percebeu que esse era um aspecto crucial para a determinação da trajetória do projétil que a vitimou. Apesar da exumação, as dúvidas permaneciam no ar.

Em 1997, a Justiça de Alagoas solicitou um segundo laudo aos legistas Genival Veloso de França (Universidade Federal da Paraíba) e Daniel Romero Muñoz (Universidade de São Paulo), e ao especialista em balística Domingos Tochetto (Escola Superior da Magistratura do Rio Grande do Sul) e ao perito Nicholas Soares Passos (Secretaria de Segurança de Alagoas). Foi realizada nova exumação e, considerando o tamanho da tíbia e do fêmur, estimou-se a altura de Suzana em 1,57 m (margem de erro entre 1,541 e 1,599 cm).

A pressão para que a versão oficial prevalecesse era muito grande. Os resultados obtidos pelos legistas Genival França e Daniel Muñoz foram contestados sob a alegação de que as estimativas teriam sido feitas com base em tabelas internacionais de tamanho de ossos, não válidas para o nosso biotipo. O que se via, na verdade, era um grande bate-boca entre médicos-legistas. Ninguém apresentava uma prova concreta quanto à altura de Suzana. Essa questão só foi esclarecida dois anos depois, mas isso é assunto para o capítulo 5.






PC Farias — Lado B

Cai o laudo oficial

“A altura de Suzana é fundamental. Estando errada, estará errado o resto — a começar pela trajetória do tiro e por sua projeção em relação à parede trespassada pela bala. […] Tudo se alteraria, desde a curva feita pela arma em seu movimento de recuo (e nele, a distância e a forma em que a arma foi encontrada) até o tamanho e a forma das gotas de sangue encontradas na cama.”

Trecho de carta de Fortunato Badan Palhares
à Folha de S.Paulo, publicada em 21 de setembro de 1997.

O jornalista Mário Magalhães, da Folha de S.Paulo, mesmo não sendo um especialista, após examinar diversas fotos de Suzana Marcolino não se convencia de que ela tivesse 1,67 m, como afirmara Badan em seu laudo. Mário nos procurou na Unicamp solicitando uma análise técnica que demonstrasse a verdadeira altura de Suzana.

A questão da altura já fora contestada em 1997 pelos legistas Genival França e Daniel Muñoz, com base no comprimento de ossos, mas os resultados restaram controversos pois alegou-se que as tabelas não se aplicavam ao Brasil, como já comentamos no capítulo 3.

Mário Magalhães disponibilizou um conjunto de fotos nas quais Suzana aparecia sozinha ou em companhia de outras pessoas com alturas conhecidas, como sua irmã Ana Luiza e PC Farias. PC media 1,63 m, e a irmã de Suzana, 1,67 m. Tínhamos, pois, um referencial seguro para avaliar a altura de Suzana.

Um dos complicadores era o fato de Suzana, regularmente, usar saltos muito altos. Não raramente sapatos que combinavam salto alto e plataforma. Era preciso avaliar a influência dos sapatos na altura medida. Como não encontramos estudos específicos, montamos, nós mesmos, um experimento que demonstrasse objetivamente o efeito dos calçados na altura final. Os resultados do experimento foram tabulados e serviram como fator de correção na altura medida nas fotos.

O mais importante é que Suzana, mesmo usando saltos altíssimos, sempre aparece nas fotos com altura menor do que PC (1,63 m) e sua irmã (1,67 m). Em uma das fotos, Suzana está na Europa, exatamente ao lado de sua irmã Ana Luiza. Suzana calça um sapato plataforma com salto 10, e sua irmã, uma bota de neve com sola lisa, sem salto. Ainda assim, Suzana aparece mais baixa do que a irmã.

Após todos os exames, aplicando o fator de correção de calçado, pudemos concluir com segurança que a altura de Suzana, obrigatoriamente, ficaria na faixa entre 1,53 m e 1,57 m, altura bem abaixo da assumida na versão oficial que foi de 1,67 m.

Mas por que a altura de Suzana é fundamental como o próprio Palhares afirmara na carta publicada pela Folha de S.Paulo? A tese de suicídio só se sustentaria se Suzana tivesse mais de 1,65 m. O orifício de entrada do projétil na parede não seria compatível com uma pessoa muito baixa. Se Suzana tinha cerca de 1,55 m, ela precisaria estar se levantando no momento em que recebeu o disparo. Mas ninguém consegue se matar com um tiro no peito, segurando a arma com as duas mãos, ao mesmo tempo que se levanta.

O que ocorreu foi que alguém colocado ao pé da cama apontou e disparou contra o peito de Suzana. Num movimento de autodefesa, ela se levantava quando foi atingida. Só assim faria sentido a trajetória do projétil que transfixou o corpo e a parede de madeira do quarto. Foi homicídio, não suicídio.

Dúvidas quanto ao alegado suicídio de Suzana já tinham sido levantadas antes. O legista Genival França, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Legal, afirmou em 1997: “Não existe suicídio com alguém em movimento e Suzana se erguia num instinto de defesa.” Outro renomado legista, Daniel Muñoz, da USP, confirmava: “No momento em que Suzana foi atingida, sua postura era dinâmica, a posição era instável, ela não tinha equilíbrio.”

No entanto, a tese do homicídio só se sustentaria após a confirmação científica da altura de Suzana. Nosso trabalho, com base nas fotos fornecidas pela Folha, provou, de forma incontestável, que Suzana era muito baixa e que a altura de 1,67 m assumida no laudo oficial era um imperdoável equívoco.

Causa imensa estranheza que um legista experiente cometesse erro tão básico e com tão graves consequências. Em 31 de março de 1999, a Folha de S.Paulo publicava: “Em 1 hora, 59 minutos e 58 segundos de imagens contidas na fita enviada por Badan à Justiça de Alagoas e anexada aos autos do inquérito que investiga as mortes de PC e Suzana, não houve medição da altura ou de qualquer órgão do corpo na necropsia.”

O fato é que a baixa altura de Suzana exclui a tese de suicídio; não poderia haver erro quanto a esse aspecto.

O legista Genival França resume bem o que a comunidade científica especializada achava do caso. Em entrevista ao jornal O Norte, de João Pessoa (PB), em 2 de maio de 1999, afirmava sem rodeios: “Acredito que as únicas dúvidas restantes são relativas às autorias. As provas são evidentes de duplo homicídio.”

Se Suzana foi morta, começa a fazer sentido aquela voz misteriosa que, em seu primeiro telefonema para o dentista, sussurra ao fundo: “Que cê tá fazendo…? Te arruma!” A versão oficial atribuiu essa voz a PC Farias, mas todos os outros especialistas em Medicina Legal afirmaram categoricamente que PC não poderia estar vivo no horário do telefonema. Quem falava com Suzana, provavelmente, era seu algoz.

Uma perícia rigorosa muda o resultado de um caso — foi um experimento próprio de fotometria, e não o laudo oficial, que reposicionou a altura de Suzana Marcolino e reabriu a tese de homicídio. Esse mesmo padrão de exame técnico é aplicado hoje em perícias grafotécnicas, documentoscópicas, de imagem e de acidentes de trânsito.

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Mais esquisitices

Em junho de 1997, a irmã mais velha de Suzana deu um depoimento ao Ministério Público dizendo que uma prima viu a caseira da residência onde aconteceu o crime chorar e “conversar” com Suzana ao lado do caixão. A caseira teria “dito” para Suzana que um segurança sabia de tudo o que tinha acontecido. Nem irmã, nem prima, nem caseira foram procuradas novamente pelo Ministério Público ou pela polícia.

Outra informação nunca investigada, presente nesse depoimento da irmã de Suzana, é que a caseira se queimou ao deixar cair água fervente na própria barriga, por volta das 7h da manhã do dia do crime. O motivo do acidente teria sido o susto com o barulho de um tiro — o que teria matado Suzana?

Tudo isso foi negado posteriormente. Procurada pela Folha de S.Paulo em 1999, a caseira, ainda funcionária da família Farias, dizia não ter nada para declarar e que só daria entrevista na presença de seu advogado. Sobre a conversa à beira do caixão, afirmou que nem tinha ido aos velórios e, como todos os funcionários que estavam na casa, ao ser ouvida no inquérito disse que não ouviu barulho de tiros. Ficou sabendo das mortes apenas pelo marido, às 11h da manhã, depois que os seguranças arrombaram a janela do quarto. Depois disso, achou a bala que matou Suzana e atravessou a parede.

A tese do crime passional era reforçada por um suposto envolvimento de PC com a socialite Cláudia Dantas, que em 1996 foi apresentada pela polícia de Alagoas como pivô das mortes de PC e Suzana. A versão sustentava que PC trocaria Suzana por Cláudia, por isso a primeira, não admitindo perder o namorado rico, o teria matado e cometido o suicídio. Nunca se demonstrou, entretanto, que PC e Cláudia tivessem algum relacionamento ou que Suzana estivesse prestes a ser abandonada. Afinal, na noite dos crimes, Suzana jantou com PC e seus familiares.

O decorador e paisagista Gilson Lima, que havia oito anos trabalhava com carteira assinada para PC, foi à casa de praia, no dia anterior aos crimes, para trocar as capas dos sofás. PC teria dito que, se Suzana não aprovasse, Gilson seria novamente chamado para que ela fizesse outra escolha. Mais um indício de que PC não pensava em abandonar Suzana.

O delegado de Cruz das Almas, distrito responsável pela praia de Guaxuma, foi proibido de entrar na casa e afastado das investigações pelo secretário de Segurança de Alagoas, José Amaral, que designou o delegado Cícero Torres para presidir o inquérito. Torres não convocou nenhum parente próximo de Suzana para depor. No primeiro dia, já propalava não acreditar que PC e Suzana tivessem sido assassinados por uma terceira pessoa.

O delegado era um velho amigo da família Farias. Segundo a revista IstoÉ de 15 de novembro de 1999, Cícero Torres prestava “assessoria à Tigre Vigilância Patrimonial de Alagoas Ltda. Oficialmente, a empresa pertence a Marcos Maia, mas aparece na lista telefônica de Maceió com o mesmo endereço e o mesmo número de telefone da casa de Augusto Farias”. Nesse mesmo ano, Torres foi preso, acusado de tráfico internacional de armas.

No rol dessas esquisitices, cabe registrar a defesa inabalável que a família de PC fazia do laudo oficial. Dois dos irmãos, o deputado Augusto Farias e o médico Luiz Romero, insistiam que havia “provas cabais” de que Suzana havia matado PC e cometera suicídio logo em seguida. Essa posição era tão veementemente defendida que o procurador Delson Lyra da Fonseca, que acompanhava o inquérito, assinalou o seguinte: “Curiosa foi a atitude de alguns veículos de comunicação, autoridades, técnicos e, principalmente, dos irmãos de Paulo César. Ao reagirem a qualquer opinião contrária, procediam de uma energia tal que transformaram, em certos momentos, o debate em confronto: era como se nenhuma outra hipótese possível pudesse ser sequer ventilada.”

Havia uma enorme resistência a qualquer aprofundamento das investigações. Quando, em 1997, o juiz Alberto Jorge Correia de Barros Lima encomendou uma “manifestação técnica” (não um laudo) ao legista George Sanguinetti, atendendo a um pedido da promotora Failde Mendonça, o deputado Augusto Farias criticou a decisão: “Esse juiz não poderia ter aceitado o pedido dessa louca.” A postura do irmão de PC contraria a lógica: a família sempre quer que se investigue até o fim. Augusto Farias aceitou muito rapidamente uma versão definitiva para um caso com tantas questões não esclarecidas.

Mortes muito mal explicadas rondam o caso. Além daquelas que ocorreram antes do assassinato de PC, como o da sua esposa Elma — que ele nunca aceitou como motivada por causas naturais —, outros envolvidos também morreram misteriosamente, quando não violentamente. A mulher de PC morreu de embolia pulmonar. A questão é que uma simples injeção intravenosa de 20 mililitros de ar pode causar esse tipo de morte sem deixar rastros. E, para deixar essa história ainda mais misteriosa, o corpo dela foi cremado — o que não era costume na família.

Rinaldo Lima, sargento da Polícia Militar que estava trabalhando na casa como segurança particular no dia da morte do empresário, foi assassinado no início de 1999. Ele era irmão de Reinaldo, chefe da equipe que dava proteção a PC, e saiu de casa, na periferia de Maceió, na companhia de seu cunhado para tomar vinho na casa de sua irmã. Depois de caminharem um pouco, foram abordados por um grupo de cinco ou seis pessoas, houve uma discussão, o cunhado deu um soco em um dos provocadores, Rinaldo levou três tiros nas costas e caiu morto. O delegado Alcides Andrade, que investigava a morte do segurança, dizia-se surpreso com o assassinato: “Pelo que sabemos, o Rinaldo era um homem que não costumava se meter em encrencas e um policial bastante esperto. É estranho que tenha caído numa dessas.”

Quatorze dias antes, por volta de 1h da manhã, José Miguel Dantas trafegava com sua mulher na estrada que liga Maceió a Jaramataia quando uma rajada de tiros, proveniente de outro carro, foi desferida contra o casal. Ele perdeu a direção e capotou. Os dois foram executados com diversos tiros de pistola 380 e carabina calibre 12. Ele era pai da socialite Cláudia Dantas.

Os assassinatos de Rinaldo, José Miguel e de sua esposa aconteceram quando as investigações estavam sendo retomadas, os laudos oficiais sendo contestados e o processo, que não havia sido encerrado, tomando novos rumos. Esses crimes até hoje não foram devidamente elucidados.

Repercussões

Antes mesmo da entrega do nosso laudo demonstrando a verdadeira altura de Suzana Marcolino, a indignação era geral, até dentro da própria Unicamp. Se a população estava surpresa e ansiosa por novidades no caso, por notícias confiáveis, parte da comunidade acadêmica se manifestava revoltada. Francisco Foot Hardman, coordenador da pós-graduação do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, publicou sua opinião na Folha de S.Paulo em 17 de abril de 1999: “Com efeito, megalomanias à parte, a própria administração central da Unicamp foi em parte responsável pelos efeitos de espetacularização das atividades do legista, numa concepção deformada dos valores acadêmicos e universitários, que tem confundido divulgação da ciência e prestação de serviços à sociedade com populismo barato e show mercadológico na mídia. Do lamentável episódio, desmascarado graças ao bom jornalismo investigativo desta Folha, resulta perplexidade e indignação de parte considerável, felizmente, da comunidade acadêmica da Unicamp, para a qual se tornam urgentes: a) internamente, a apuração em profundidade, pela direção da Faculdade de Medicina e reitoria, das irregularidades que teriam sido cometidas pelo professor dr. Badan Palhares no exercício das suas funções como docente da Unicamp; b) externamente, por parte do governo federal, o esclarecimento em definitivo do ‘caso PC’, dada sua relevância nacional, antes que soçobre no esquecimento como mais um ‘mistério amoroso’ alagoano.”

Dois anos depois, no próprio Jornal da Unicamp, o professor João Quartin de Moraes, ex-diretor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), declarou: “Aquele laudo que ele [Badan Palhares] deu no caso PC Farias é ridículo. Ele deve ter tido algum motivo especial, extracientífico, para querer nos fazer engolir sua explicação de que aquilo havia sido um drama passional entre PC Farias e sua acompanhante.”

Mas nem todos agiram assim. Outra ala da universidade, ainda que não se atrevesse a defendê-lo publicamente, comportou-se de forma corporativa, tentando blindar o citado legista. Fui muitas vezes “aconselhado”, principalmente no âmbito da Faculdade de Ciências Médicas, a relaxar um pouco minha postura crítica em relação à versão oficial. Diziam-me que a controvérsia era prejudicial à imagem da universidade. Sempre entendi o contrário: a multiplicidade de opiniões é a essência do pensamento universitário. A diversidade de ideias é comum e saudável em qualquer área do conhecimento. A divergência enriquece. A universidade está repleta de pesquisadores com teses conflitantes que convivem naturalmente com isso, uma vez que têm consciência de que a diferença contribui para o desenvolvimento de cada um. Por que deveria ser diferente com laudos?

Novas investigações

Mesmo no meio policial, apesar das pressões, surgiam vozes dissonantes. No final de abril de 1999, os delegados Antônio Carlos de Azevedo Lessa e Alcides Andrade de Alencar assumiam o caso, interessados em novos depoimentos. Descartavam a hipótese de que Suzana tivesse cometido suicídio. “Não conseguimos entender por que esse inquérito foi enviado à Justiça sem indiciar ninguém. Se os tiros tinham que ser ouvidos, se havia outras pessoas no quarto, se o revólver não tinha digitais, os seguranças, o caseiro e o vigia tinham de se explicar melhor”, dizia Alcides Andrade. Os dois delegados queriam ouvir, além dos seguranças que estavam na casa, Cícero Torres (primeiro delegado do caso), Anita Gusmão, Nivaldo Cantuária e Horácio Brasileiro (três peritos alagoanos que fizeram o primeiro laudo), e Gerson Odilon (legista), que, por desconfiar desde o início da versão oficial, teria entregue fotos da cena do crime para George Sanguinetti, seu ex-professor.

Faltavam respostas para alguns dos principais mistérios do caso, entre eles: o sumiço do telefone celular de Suzana; a falta de sangue na arma; a ausência de medição da altura de Suzana; e a não realização do exame residuográfico (que identifica se há resíduos nas mãos de quem usou uma arma de fogo) nas pessoas que estavam na casa.

A pedido dos delegados, o professor da Escola Superior da Magistratura do Rio Grande do Sul, Domingos Tochetto, especialista em balística, elaborou um estudo para verificar a possibilidade de alguém efetuar dois disparos consecutivos e não reter nas mãos resíduos químicos característicos. Ele produziu uma simulação na qual uma mulher atirava com arma igual à que matou PC. Uma câmara de alta resolução gravou os testes. A análise das imagens em câmara lenta mostra claramente uma nuvem de pó indo em direção à mão da atiradora. Depois de recolhido material das mãos com procedimento similar ao que os peritos usaram em Alagoas, concluiu-se que, se Suzana tivesse dado pelo menos um tiro, haveria vestígios de chumbo, bário, antimônio, cobre ou zinco em uma de suas mãos.

Em 2 de junho 1999, os quatro seguranças particulares que trabalhavam para PC foram presos por trinta dias, a pedido dos delegados. Porém advogados contratados por Augusto Farias entraram com habeas corpus no Tribunal de Justiça de Alagoas para anular a prisão temporária. Novamente, o clã Farias, ao contrário do esperado, esforçava-se para evitar qualquer aprofundamento da investigação. A tese de duplo homicídio era veementemente rejeitada; acreditavam, a priori, na inocência dos seguranças, tanto que custeariam a defesa deles. Diante dessa postura, o delegado Andrade comentou: “Não é comum que uma pessoa proteja aqueles que são suspeitos de matar seu próprio irmão.”

O delegado Lessa afirmava: “Com base em dados da perícia técnica e nas falhas que encontramos no laudo, descartamos qualquer hipótese de homicídio seguido de suicídio.” Ele ainda iria mais longe. Depois de seis meses de investigação, chegou a dizer: “Não há dúvida de que o deputado [Augusto Farias] comandou toda a operação.”

Em março de 2000, o ministro Sepúlveda Pertence, do Supremo Tribunal Federal (STF), atendendo a pedido do procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, determinou à Polícia Federal que investigasse se o deputado Augusto Farias teve alguma interferência no resultado do laudo oficial. Brindeiro acreditava haver indícios de participação do deputado na alteração da cena do crime.

Em uma surpreendente reviravolta, em novembro de 2001, quarenta dias antes de Augusto Farias perder a imunidade parlamentar, pois não se reelegera deputado, o mesmo Geraldo Brindeiro recomendou ao STF o arquivamento do inquérito criminal que apurava a participação do parlamentar no assassinato de seu irmão PC Farias. Por essas e outras, Brindeiro acabou recebendo o apelido jocoso de “engavetador-geral da República”.

O caso PC voltou à tona no bojo da CPI do narcotráfico, instaurada no final de 1999. O mesmo legista responsável pelo polêmico laudo foi então acusado de emissão de outros laudos supostamente fraudulentos. A CPI levantou suspeita de associações com o crime organizado. Uma testemunha-chave na CPI, Jorge Meres, motorista do empresário William Sozza, declarou que seu chefe mantinha, na periferia de Campinas, uma oficina de desmonte de caminhões roubados. A denúncia foi confirmada, e as carcaças, descobertas. Para espanto geral, dentre os destroços de carrocerias foi encontrado um pacote com fotos da exumação dos corpos de PC e Suzana, fato até hoje nunca explicado. Sozza, o principal acusado dessa CPI e o único que não era parlamentar, foi condenado a dezesseis anos de prisão.

PC: um caso nada encerrado

Os jornalistas Mário Simas Filho e Mino Pedrosa, em matéria da revista IstoÉ de abril de 1999, resumem bem por que ninguém acreditava na versão oficial. Para que fosse verdadeira, “coisas sobrenaturais teriam de ter ocorrido na madrugada de 23 de junho de 1996. A pessoa que atirou em PC deveria estar flutuando sobre a cama. O empresário, depois de baleado, teria se deitado, puxado o lençol e morrido bem-arrumadinho. Suzana, por sua vez, teria atirado em PC, vestindo luvas, atirado contra o próprio peito em pé sobre a cama, tirado e escondido as luvas, lavado o revólver e depois deitado para morrer ao lado do namorado”. Nem Shakespeare teve tanta imaginação quando escreveu a tragédia amorosa de Romeu e Julieta.

A lista a seguir apresenta os principais erros, dúvidas e contradições que pairam até hoje sobre o caso:

  • A altura de Suzana era muito menor do que a considerada no laudo oficial, o que invalida a tese do suicídio;
  • Suzana foi encontrada de sutiã, peça que ela só vestia publicamente quando estava de roupas transparentes e, segundo sua irmã, que não usaria em nenhuma hipótese para dormir;
  • A voz que se ouve ao fundo da primeira ligação feita por Suzana para o dentista de São Paulo, às 3h54, mostra que havia outra pessoa no quarto. Mas, no entanto, segundo a maioria dos especialistas em medicina legal, PC já estava morto nesse horário;
  • Embora houvesse sangue nos braços, nas pernas, no pescoço, nas roupas, na parte da cama à frente do corpo e respingos numa colcha e no criado-mudo, não há sangue de Suzana na arma supostamente usada para o suicídio;
  • O revólver usado não tinha impressões digitais. Uma reconstituição com outras vinte pessoas, dezessete mulheres e três homens, registrou impressões dos dedos dos atiradores em todos os testes;
  • Não havia resíduos de elementos metálicos nas mãos de Suzana. Testes de laboratório mostraram que após dois disparos seria altamente improvável que tais resíduos não fossem detectados;
  • Nenhum segurança ou funcionário da casa diz ter ouvido o barulho dos dois tiros. No entanto, todos que participaram do teste de audibilidade, no mesmo local e com a mesma arma, ouviram o som dos disparos;
  • Por que o celular de Suzana nunca foi encontrado?
  • Por que a cena do crime foi totalmente destruída, com queima do colchão e lavagem meticulosa do piso?
  • O que motivou tantas mortes misteriosas associadas ao caso?

Na verdade, tudo o que se relaciona com o caso PC é nebuloso, esquisito. Talvez isso explique por que até hoje a opinião pública se recusa a acreditar na história oficial. Com frequência sou abordado na rua por conta desse assunto. O povo não engole a tese de crime passional. Ninguém aceita que o personagem central na armação financeira que derrubou o governo Collor poderia morrer de forma tão prosaica.

Independentemente das dúvidas que pairam sobre o caso, está consolidada na percepção popular a certeza de que foi uma queima de arquivo. Na dimensão histórica, ainda se trata de um fato muito recente, mas acredito que é essa a versão — e não a do laudo oficial — que vai prevalecer nos livros daqui a cem anos.

O julgamento

Com um enorme atraso, em maio de 2013, quatro seguranças de PC Farias foram julgados em júri popular. É evidente que um julgamento realizado dezessete anos depois do crime terá enormes dificuldades para avaliar fatos tão remotos. As inúmeras versões que já tinham circulado tendiam a confundir os jurados e a opinião pública. Mesmo assim, a tese do Ministério Público de que PC e Suzana foram assassinados prevaleceu.

Embora nenhum dos réus tenha sido condenado, mais por falta de provas do que por convicção, o importante nesse julgamento é a consolidação jurídica da tese de duplo homicídio. Em outras palavras, para o júri, a versão “homicídio seguido de suicídio” não se sustentava. Para todos os efeitos, agora, oficialmente, confirma-se o que já sabíamos desde o começo: PC e Suzana foram executados.

30 anos depois, o caso PC Farias ainda é referência em perícia técnica no Brasil.

O Prof. Dr. Ricardo Molina soma mais de 30 anos de atuação pericial contínua, tendo analisado milhares de casos — não apenas por nomeação judicial, mas também a pedido do Ministério Público e da Defesa, em disputas cíveis, criminais e trabalhistas.

Outros casos de repercussão nacional

  • Gravação Presidente TEMER / JOESLEY Batista
  • Gravações LAVA JATO
  • Assassinato da jovem ELOÁ Pimentel
  • Chacina de VIGÁRIO GERAL
  • Carlinhos CACHOEIRA / Waldomiro DINIZ
  • Favela Naval — Caso “RAMBO”

Todos esses casos — e a análise completa do caso PC Farias, capítulo a capítulo — estão no livro O Brasil na Fita.
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